O que fazer quando a solidão chega sem você esperar? Como trata-lá, ser cordial e anfitrião quando ela só chega a sua casa para trazer o sentimento mais ínfimo e maçante que se possa ter um homem. Ela chegou ontem aqui em meu remanso, depois que companhias familiares foram embora - após me apoiarem pela morte de minha mãe. Chegou sozinha (a solidão também é uma solitária) não disse nada, nenhum um “olá!”, veio, sentou – se ao meu lado sem formalidades e sussurrou com uma voz gutural que me fez arrepiar as costelas: Você está só. Isso podia ser óbvio, mas eu, que ainda não tinha me dado conta fui surpreendido. A perversa solidão fez questão de esbanjar toda realidade nua e crua na minha cara rebuscada de infelicidade. Mas ela não é má, só é amarga, o seu amargo que tem gosto nojento de champanhe velho, que foi guardada por um homem sórdido no seu carrinho de bebidas de sala de estar. Faz a busca de companhias e as leva, para não ter que dividir com seu próprio prazer o sentimento individual de que só ela é sozinha. Sempre quer mais, quer mais alguém. Foi assim. Dali pra frente ela foi minha unica fiel e leal companhia. Hilariante é que a solidão foi a intermediaria de me acordar da vontade de amar e ser amado graças a ela - eu não sabia - fui apresentado a sua filha, uma menina doce chamada carecente e a quem posso caracterizar como linda, pálida e de olhos azuis. Assim fui despertado ao ato de querer, de amar, sonhar e buscar a liberdade fora do ermo, ao contrario de sua mãe que chegou fria instalando-se no alto do meu infortúnio, habituando-me a ser tão só.